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Financiamento da Atenção Primária no SUS: como funciona o cofinanciamento federal

Equipe da secretaria de saúde analisa planilhas, gráficos e orçamento em reunião de planejamento

Neste texto

A Atenção Primária no SUS é financiada pela União, pelos estados e pelos municípios. A parte federal chega ao município por um modelo de cofinanciamento que, desde a Portaria GM/MS nº 3.493/2024, combina seis componentes: um valor fixo por equipe, um componente de vínculo e acompanhamento territorial, um de qualidade, um para programas e serviços, um para saúde bucal e um per capita. Entender essa lógica ajuda o gestor a ver por que cadastro, registro e planejamento afetam diretamente os recursos da unidade. Abaixo está o modelo, com o cronograma de transição definido em 2026.

Financiamento tripartite: quem paga a Atenção Primária

O SUS é financiado pelas três esferas de governo. A Lei Complementar nº 141/2012 define os percentuais mínimos de aplicação em ações e serviços públicos de saúde: os municípios devem aplicar pelo menos 15% da arrecadação de impostos e transferências, e os estados, pelo menos 12%. A União segue regra própria, prevista na Constituição. A esses recursos próprios somam-se as transferências federais, feitas fundo a fundo, do Fundo Nacional de Saúde para os fundos municipais.

Na Atenção Primária, a transferência federal é chamada de cofinanciamento porque complementa o que o município já investe. Ela não cobre o custo total das equipes.

O modelo da Portaria GM/MS nº 3.493/2024

A portaria de abril de 2024 substituiu o modelo anterior, que se baseava em capitação ponderada e pagamento por desempenho. A nota técnica conjunta do Ministério da Saúde, do Conass e do Conasems lista seis componentes:

Componente Para quê
I. Fixo Manutenção das equipes de Saúde da Família (eSF) e de Atenção Primária (eAP), além do recurso de implantação de eSF, eAP, equipes de saúde bucal (eSB) e equipes multiprofissionais (eMulti).
II. Vínculo e acompanhamento territorial Estimular o vínculo, o acompanhamento, a qualificação do cadastro e a reorganização da Atenção Primária no território. Considera as pessoas vinculadas às eSF e eAP e acompanhadas pelas equipes.
III. Qualidade Incentivar a melhoria do acesso e da qualidade e induzir boas práticas, com base em indicadores. As equipes são classificadas como ótimo, bom, suficiente ou regular.
IV. Programas, serviços e profissionais Implantação e manutenção de programas, serviços, profissionais e outras composições de equipe que atuam na Atenção Primária.
V. Atenção à Saúde Bucal Recursos específicos para a saúde bucal.
VI. Per capita de base populacional Valor por habitante para ações no âmbito da Atenção Primária.

O Indicador de Equidade e Dimensionamento

Os componentes fixo, de vínculo e de qualidade variam conforme o Indicador de Equidade e Dimensionamento (IED). Ele classifica os municípios em quatro estratos, combinando o Índice de Vulnerabilidade Social, do Ipea, com o porte populacional, do IBGE. O estrato 1 reúne os municípios mais vulneráveis e de menor porte, que recebem valores maiores.

Na nota técnica de 2024, o componente fixo mensal da equipe de Saúde da Família aparece assim:

Estrato do IED Valor mensal por eSF (componente fixo)
Estrato 1 R$ 18.000,00
Estrato 2 R$ 16.000,00
Estrato 3 R$ 14.000,00
Estrato 4 R$ 12.000,00

O repasse depende do credenciamento da equipe pelo Ministério da Saúde, do cadastro no SCNES e da ausência de irregularidades que levem à suspensão.

A transição definida em 2026

Os componentes de vínculo e de qualidade estão sendo implantados por etapas. A Portaria GM/MS nº 10.994, de 13 de maio de 2026, fixou o cronograma:

  • Qualidade: até o primeiro quadrimestre de 2026, repasse pelos valores da classificação “bom”. A partir do segundo quadrimestre de 2026, implantação parcial: equipes “ótimo” recebem o valor de “ótimo”, e as demais continuam com o valor de “bom”.
  • Vínculo e acompanhamento territorial: até o segundo quadrimestre de 2026, valores da classificação “bom”. A partir do terceiro quadrimestre de 2026, implantação parcial com a mesma regra.
  • A partir do primeiro quadrimestre de 2027: o incentivo desses dois componentes passa a considerar a classificação de cada equipe.

Na prática, 2026 é um período de adaptação. Equipes com cadastro desatualizado ou registros incompletos podem perder recursos quando a classificação passar a valer integralmente.

O que isso muda para o gestor da unidade e do município

  1. Cadastro qualificado. O componente de vínculo depende de pessoas vinculadas e acompanhadas. Cadastro atualizado deixou de ser burocracia.
  2. Registro completo no e-SUS APS. Os indicadores de qualidade são calculados a partir dos registros. Cuidado feito e não registrado não conta.
  3. Planejamento integrado ao orçamento. As ações da Atenção Primária precisam estar no Plano de Saúde e na Programação Anual de Saúde, e conversar com o Plano Plurianual, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e a Lei Orçamentária Anual do município.
  4. Prestação de contas. Os recursos transferidos fundo a fundo são acompanhados pelos relatórios de gestão e pelo conselho de saúde, previstos na Lei Complementar nº 141/2012.

Financiamento, orçamento, compras públicas e uso de informações financeiras para a decisão são temas da disciplina Financiamento, Orçamento e Gestão de Recursos em Saúde, da pós-graduação em Gestão em Saúde Pública com ênfase em Saúde Coletiva e da Família da YnovaPós. Em sala, a turma trabalha com casos de alocação de recursos e com as regras de financiamento vigentes.

Valores, componentes e prazos podem ser alterados por novas portarias. Confira sempre a norma vigente e as notas técnicas do Ministério da Saúde antes de tomar decisões.

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.493, de 10 de abril de 2024.
  2. SAPS/MS, Conasems e Conass. Nota técnica conjunta para orientação de aplicação do novo financiamento da APS. 2024.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 10.994, de 13 de maio de 2026. Diário Oficial da União, 14 maio 2026, seção 1, p. 1105.
  4. Brasil. Lei Complementar nº 141, de 13 de janeiro de 2012.
Quem escreveuEquipe YnovaConteúdo produzido pela Equipe Ynova para o blog da YnovaPós.
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