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Indicadores da Atenção Primária: como ler os números da unidade e usar os dados para decidir

Enfermeira e gestor de saúde analisam painel de indicadores com gráficos em uma tela

Neste texto

Para ler os indicadores da sua unidade, comece por três perguntas: quem está no denominador (quais pessoas o indicador acompanha), que boas práticas ou registros entram no numerador e de onde vêm os dados. Com isso fica mais fácil entender por que um resultado está baixo e o que mudar no processo de trabalho. A Atenção Primária passou a ter, desde 2025, um conjunto de 15 indicadores de qualidade ligados ao cofinanciamento federal, com monitoramento mensal. Este texto mostra como eles funcionam, usando o indicador de cuidado da pessoa com diabetes como exemplo.

Os indicadores de qualidade da Atenção Primária

Em maio de 2025, o Ministério da Saúde, o Conass e o Conasems apresentaram os novos indicadores do componente de qualidade do cofinanciamento federal da Atenção Primária, previsto na Portaria GM/MS nº 3.493/2024. Segundo o Conasems, são 15 indicadores, com dados medidos mensalmente, e não mais a cada quatro meses como no modelo anterior. Eles foram apresentados em três blocos:

Bloco Indicadores
Cuidado das pessoas e dos ciclos de vida Cuidado da pessoa com diabetes; cuidado da pessoa com hipertensão; cuidado da gestante e do puerpério; cuidado da mulher na prevenção do câncer; cuidado da pessoa idosa; cuidado no desenvolvimento infantil
Acesso e equipes multiprofissionais Ações interprofissionais realizadas pela eMulti; média de atendimentos por pessoa assistida pela eMulti; mais acesso à APS
Saúde bucal Escovação dentária supervisionada em faixa etária escolar; primeira consulta odontológica programada; tratamento odontológico concluído; tratamento restaurador atraumático; procedimentos odontológicos preventivos; taxa de exodontias realizadas

As equipes são classificadas em quatro faixas: ótimo, bom, suficiente e regular. A Portaria GM/MS nº 10.994, de 13 de maio de 2026, definiu a transição: durante a implantação, o repasse usa os valores da classificação “bom”, com implantação parcial ao longo de 2026, e a partir do primeiro quadrimestre de 2027 o incentivo passa a considerar a classificação de cada equipe.

Exemplo: como se calcula o cuidado da pessoa com diabetes

A nota metodológica do indicador C4, publicada pela Secretaria de Atenção Primária à Saúde, ajuda a entender a lógica de todos os outros. O indicador não conta só consultas. Ele soma boas práticas realizadas para cada pessoa com diabetes vinculada à equipe.

  • Denominador: pessoas com diabetes vinculadas à equipe no período, identificadas por CID-10 (E10, E11 ou E14) ou CIAP-2 (T89 ou T90) registrados em atendimento individual. Saem da conta quem mudou de território ou de equipe, quem teve as condições resolvidas e quem morreu.
  • Numerador: soma dos pontos das boas práticas alcançadas por cada pessoa, até 100 pontos por pessoa.
Boa prática Período Pontos
Consulta presencial ou remota com médico ou enfermeiro últimos 6 meses 20
Aferição de pressão arterial últimos 6 meses 15
Registro de peso e altura últimos 12 meses 15
Duas visitas domiciliares de ACS ou TACS, com intervalo mínimo de 30 dias últimos 12 meses 20
Solicitação ou avaliação de hemoglobina glicada últimos 12 meses 15
Avaliação dos pés últimos 12 meses 15

As faixas do indicador são: ótimo, acima de 75 até 100; bom, acima de 50 até 75; suficiente, acima de 25 até 50; regular, até 25. A atualização e o monitoramento são mensais, e a avaliação é quadrimestral. Os dados vêm dos registros feitos no e-SUS APS, com o profissional identificado.

Como usar o indicador para decidir

Um resultado baixo pode ter causas muito diferentes. Antes de concluir que o cuidado está ruim, vale separar o problema em partes.

  1. O denominador está certo? Pessoas com diabetes atendidas sem o registro do CID ou do CIAP não entram no indicador. Pessoas que já mudaram de endereço e continuam vinculadas puxam o resultado para baixo.
  2. O cuidado foi feito, mas não registrado? Pressão aferida e não anotada, pés examinados sem registro, visita do agente sem a ficha correspondente. Nesses casos o problema é de registro, e a solução passa por padronizar o preenchimento.
  3. Qual boa prática está faltando? Se o ponto fraco é a hemoglobina glicada, o gargalo pode estar no laboratório ou na marcação de exames. Se é a visita domiciliar, pode haver microáreas descobertas.
  4. Quem não está sendo acompanhado? Listas nominais permitem fazer busca ativa das pessoas sem consulta nos últimos seis meses, em vez de esperar que elas procurem a unidade.

Cuidados na interpretação

  • Números pequenos oscilam muito. Em equipes com poucas pessoas no denominador, a mudança de um ou dois casos altera bastante o resultado.
  • Indicador não é diagnóstico completo. Ele mede boas práticas registradas, não a qualidade de cada consulta. Use junto com a escuta da equipe e dos usuários.
  • Compare com cuidado. Equipes com populações e territórios diferentes não são diretamente comparáveis.
  • Metas não podem distorcer o cuidado. Registrar para pontuar, sem cuidar, gera números bons e resultados ruins.

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As regras e os indicadores do cofinanciamento podem ser alterados. Confira sempre a versão vigente das notas metodológicas do Ministério da Saúde.

Referências

  1. Conasems. Conasems, Conass e Ministério da Saúde promovem lançamento de novos indicadores de cofinanciamento da Atenção Primária à Saúde. 23 maio 2025.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota metodológica C4: cuidado da pessoa com diabetes.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.493, de 10 de abril de 2024.
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 10.994, de 13 de maio de 2026. Diário Oficial da União, 14 maio 2026, seção 1, p. 1105.
Quem escreveuEquipe YnovaConteúdo produzido pela Equipe Ynova para o blog da YnovaPós.
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