A classificação de lesão por pressão usada no Brasil segue o sistema publicado em 2016 pelo National Pressure Ulcer Advisory Panel (NPUAP, hoje NPIAP), adaptado culturalmente para o português pela Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST) e pela SOBENDE. A Anvisa adota essa classificação na Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023. Ela tem seis categorias (estágios 1, 2, 3 e 4, lesão não classificável e lesão tissular profunda) e duas definições adicionais: lesão relacionada a dispositivo médico e lesão em membranas mucosas. Na beira do leito, o raciocínio segue uma ordem: avaliar o risco, examinar a pele, classificar a lesão, descrever a ferida e registrar tudo.
De onde vem a classificação
A referência internacional é a diretriz conjunta do European Pressure Ulcer Advisory Panel (EPUAP), do National Pressure Injury Advisory Panel (NPIAP) e da Pan Pacific Pressure Injury Alliance (PPPIA). A última edição completa é a 3ª, de 2019. A 4ª edição está em elaboração pelas três entidades e vem sendo publicada online, por partes, desde fevereiro de 2025, começando pelas seções de prevenção.
No Brasil, a mudança de nome aparece nos documentos oficiais. O protocolo do Ministério da Saúde, da Anvisa e da Fiocruz de 2013 ainda falava em “úlcera por pressão”. A nota técnica de 2023 já usa “lesão por pressão” e define o termo como dano localizado na pele e/ou nos tecidos moles subjacentes, resultante de pressão ou de pressão combinada com cisalhamento. A lesão costuma ocorrer sobre proeminências ósseas, mas também pode estar relacionada ao uso de dispositivo médico ou a outro artefato.
Quem trabalha com feridas no dia a dia precisa dominar esse vocabulário. Na pós-graduação em Enfermagem em Estomaterapia da YnovaPós, feridas, drenos e tubos formam um dos eixos da grade, ao lado de estomias e incontinências.
Tabela da classificação de lesão por pressão
As descrições abaixo resumem as definições da adaptação brasileira reproduzidas na Nota Técnica nº 05/2023 da Anvisa. Para uso institucional, consulte o texto integral.
| Categoria | O que se observa | Pontos de atenção |
|---|---|---|
| Estágio 1 | Pele íntegra com área localizada de eritema que não embranquece | Em pele de cor escura pode ter aparência diferente. Alterações de sensibilidade, temperatura ou consistência podem vir antes da mudança visual. Descoloração púrpura ou marrom sugere dano mais profundo |
| Estágio 2 | Perda da pele em sua espessura parcial com exposição da derme | Leito viável, rosa ou vermelho, úmido. Pode ser uma bolha intacta ou rompida com exsudato seroso. Não há tecido adiposo visível nem tecido de granulação, esfacelo ou escara |
| Estágio 3 | Perda da pele em sua espessura total, com gordura visível | Tecido de granulação e epíbole são frequentes. Pode haver esfacelo, escara, descolamento e túneis. Não há exposição de fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso |
| Estágio 4 | Perda da pele em sua espessura total e perda tissular com exposição ou palpação direta de fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso | Esfacelo ou escara podem estar presentes. Epíbole, descolamento e túneis ocorrem com frequência. A profundidade varia conforme a região anatômica |
| Não classificável | Perda da pele em espessura total e perda tissular em que a extensão do dano não pode ser confirmada porque está encoberta por esfacelo ou escara | Quando o tecido necrótico é removido, aparece uma lesão estágio 3 ou 4 |
| Tissular profunda | Pele intacta ou não, com área localizada e persistente de descoloração vermelho escura, marrom ou púrpura que não embranquece, ou separação epidérmica que mostra leito escurecido ou bolha com sangue | Dor e alteração de temperatura costumam preceder a mudança de cor |
| Relacionada a dispositivo médico | Lesão causada por dispositivos criados e aplicados para fins diagnósticos e terapêuticos | Costuma ter o formato do dispositivo. É classificada com o mesmo sistema de estágios |
| Em membranas mucosas | Lesão em mucosa com histórico de uso de dispositivo médico no local | Pela anatomia do tecido, não pode ser categorizada em estágios |
Duas observações do sistema original do NPUAP ajudam a evitar erro comum. A primeira: escara estável (seca, aderida, íntegra, sem eritema nem flutuação) no calcâneo ou em membro isquêmico não deve ser amolecida nem removida. A segunda: a categoria tissular profunda não deve ser usada para descrever condições vasculares, traumáticas, neuropáticas ou dermatológicas.
Avaliação de risco: a escala de Braden
A nota técnica da Anvisa recomenda avaliar o risco de todo paciente admitido com escalas validadas e específicas para a população, e cita a escala de Braden, validada no Brasil por Paranhos e Santos em 1999. Para crianças, o documento menciona a versão Braden Q.
A escala tem seis itens: percepção sensorial, umidade, atividade, mobilidade, nutrição, e fricção e cisalhamento. Os cinco primeiros valem de 1 a 4 pontos; fricção e cisalhamento vale de 1 a 3. O total vai de 6 a 23, e quanto menor a pontuação, maior o risco. O protocolo do Ministério da Saúde de 2013 usa estas faixas:
| Pontuação na escala de Braden | Classificação do risco |
|---|---|
| 15 a 18 | Risco baixo |
| 13 a 14 | Risco moderado |
| 10 a 12 | Risco alto |
| 9 ou menos | Risco muito alto |
A pontuação só tem valor se for repetida. A nota técnica orienta acompanhar o risco diariamente durante toda a internação e reavaliar quando a condição clínica mudar, antes de transferências externas e na alta. Protocolos institucionais podem acrescentar faixas ou regras próprias.
Avaliação da ferida na beira do leito
A classificação é só uma parte do exame. Uma sequência prática para cada avaliação:
- Inspecione a pele sobre as proeminências ósseas e sob todos os dispositivos (sondas, cânulas, máscaras, talas, cateteres).
- Teste o embranquecimento nas áreas de eritema. Eritema que não embranquece em pele íntegra define o estágio 1.
- Classifique pela estrutura mais profunda visível ou palpável. Se esfacelo ou escara impedem ver o leito, a lesão é não classificável.
- Meça sempre pelo mesmo método, para que as medidas sejam comparáveis entre avaliações.
- Descreva o leito, o tipo de tecido, o exsudato, as bordas, a pele ao redor e a presença de descolamento ou túneis.
- Reavalie em intervalos definidos. O guia de consulta rápida da diretriz internacional de 2019 recomenda reavaliar a lesão pelo menos uma vez por semana para acompanhar a evolução e considerar uma ferramenta validada para monitorar a cicatrização.
Esse exame depende de treino com o paciente à frente, porque textura, cor e profundidade enganam. Na pós em Estomaterapia da YnovaPós, a avaliação de feridas sai da sala de aula nas aulas práticas, com insumos fornecidos pela instituição, e no estágio supervisionado de 60 horas em unidades de saúde e home care.
Registro e notificação
Um bom registro permite que outro profissional reproduza a avaliação. Ele deve trazer, no mínimo, a data, a localização anatômica, a categoria da lesão, as medidas, as características do leito, do exsudato, das bordas e da pele ao redor, a pontuação de risco e as medidas preventivas em uso. Fotografia só com a política do serviço e o consentimento do paciente.
A notificação segue as normas de cada serviço, conduzidas pelo Núcleo de Segurança do Paciente. Pela Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023, lesões por pressão estágio 3, estágio 4 e não classificáveis são consideradas never events e passíveis de notificação ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária pelo Notivisa. A nota traz também os prazos de notificação e de investigação. Ela é a versão atualizada da Nota Técnica nº 03/2017 e se soma ao Protocolo para Prevenção de Úlcera por Pressão publicado em 2013 pelo Ministério da Saúde, pela Anvisa e pela Fiocruz. Normas mudam: confira sempre a versão vigente na fonte oficial.
Uma lesão registrada como estágio 2 que na verdade é estágio 3 muda a conduta, o indicador do hospital e a obrigação de notificar. Por isso a classificação precisa ser feita por quem foi treinado e, em caso de dúvida, revista por outro profissional experiente.
Este texto é educativo e não substitui protocolos institucionais, prescrição ou avaliação profissional.
Referências
- Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023: Práticas de segurança do paciente em serviços de saúde: prevenção de lesão por pressão. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 2023 (cópia no portal Proqualis/Fiocruz).
- Protocolo para prevenção de úlcera por pressão. Ministério da Saúde, Anvisa e Fiocruz, 2013 (cópia no portal da Secretaria de Saúde de Goiás).
- Prevention and treatment of pressure ulcers/injuries: clinical practice guideline. The international guideline, 3rd edition. EPUAP, NPIAP e PPPIA; Emily Haesler (ed.), 2019.
- Prevención y tratamiento de las lesiones/úlceras por presión: guía de consulta rápida (2019). EPUAP, NPIAP e PPPIA; tradução para o espanhol do GNEAUPP.
- About the International Guideline (4th edition, 2026). EPUAP, NPIAP e PPPIA.
- International Guideline: news. EPUAP, NPIAP e PPPIA.
- Definitions included in updated NPUAP staging system. Provider Magazine, 2017.
- Protocolo PRT.STGQ.004: prevenção de lesão por pressão (cita Caliri MHL, Santos VLCG, Mandelbaum MHS, Costa IG. Classificação das lesões por pressão: Consenso NPUAP 2016 adaptada culturalmente para o Brasil). Hospital Universitário Júlio Bandeira (HUJB-UFCG/Ebserh), 2024.
- POP DENF 056: avaliação do risco de lesão por pressão utilizando a escala de Braden e Braden Q. Hospital Universitário da UFGD/Ebserh, 2025.