Cuidados com estomias intestinais: troca da bolsa e prevenção de complicações

Enfermeira ensina uma paciente a medir e recortar a placa da bolsa de estomia

Neste texto

Os cuidados com estomia intestinal se apoiam em quatro rotinas: observar o estoma e a pele ao redor a cada troca, recortar a placa no tamanho exato do estoma, trocar o equipamento antes que ele sature ou vaze e reconhecer cedo os sinais de complicação. O enfermeiro faz isso no pós-operatório e ensina a pessoa e a família a fazer em casa, com apoio dos serviços de atenção à saúde das pessoas com estomia do SUS. Este guia resume o que dizem os manuais do Ministério da Saúde, do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e da Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST), além de revisões sobre complicações.

Cuidados com estomia intestinal: o que muda entre colostomia e ileostomia

A ileostomia é a exteriorização da parte final do intestino delgado. Segundo o manual do INCA, as fezes começam líquidas e passam a semipastosas depois de um período de adaptação, e o estoma pode funcionar várias vezes ao dia. Na colostomia, feita no intestino grosso, a consistência depende do segmento: o guia do Ministério da Saúde descreve efluente mais líquido nas colostomias do cólon ascendente e mais sólido nas do sigmoide.

Essa diferença pesa no cuidado com a pele. Quanto mais líquido o efluente, maior o risco de infiltração sob a placa e de lesão da pele periestoma. O esvaziamento também muda: o INCA orienta esvaziar bolsas de ileostomia quando estiverem com pelo menos um terço preenchido e as de colostomia sempre que necessário. O manual da SOBEST para a região amazônica recomenda não deixar a bolsa passar da metade da capacidade, para evitar vazamentos.

Avaliação do estoma e da pele periestoma

O estoma saudável é vermelho, úmido e brilhante, parecido com a mucosa da boca, e não dói ao toque, como descreve o manual da SOBEST. O INCA orienta observar sempre cor, brilho, umidade, tamanho e forma. Qualquer mudança nesses pontos entre uma troca e outra precisa ser registrada e avaliada.

A pele periestoma deve estar íntegra. O guia do Ministério da Saúde aponta como causas de lesão nessa área o contato com o efluente, a dermatite por trauma ou por produtos e a foliculite causada pela remoção traumática dos pelos. Quase sempre, pele lesada ao redor do estoma indica um problema de encaixe ou de técnica que precisa ser corrigido na próxima troca.

Troca da bolsa de colostomia: passo a passo

A sequência abaixo reúne as orientações do INCA e do manual da SOBEST. Vale para colostomia e ileostomia, com os ajustes que o enfermeiro indicar para cada equipamento.

1 Separar o material e recortar a placa 2 Retirar com delicadeza sem traumatizar a pele 3 Limpar e secar água e sabão, sem esfregar 4 Observar estoma e pele cor, brilho, tamanho, forma 5 Conferir a medida recorte sem folgas 6 Aplicar de baixo para cima, sem pregas

  1. Separe o material e recorte a placa antes de começar. O INCA orienta recortar o coletor antes de iniciar a troca, para que o estoma fique menos tempo exposto.
  2. Retire o equipamento com delicadeza, para não traumatizar a pele.
  3. Limpe a pele ao redor com água e sabão e seque bem, sem esfregar. O INCA desaconselha álcool, benzina, colônias, tintura de benjoim, mercúrio, merthiolate, pomadas e cremes na pele periestoma.
  4. Observe o estoma e a pele antes de aplicar o novo equipamento.
  5. Confira a medida. O manual da SOBEST orienta medir o estoma com o medidor, desenhar o contorno no verso da base adesiva e cortar no tamanho do estoma, sem deixar folgas. Se o tamanho ou a forma mudaram, refaça o recorte.
  6. Aplique a bolsa de baixo para cima, evitando pregas e bolhas de ar, como descreve o INCA.

Quanto ao momento da troca, o INCA orienta trocar quando a placa estiver ficando quase toda branca, o chamado ponto de saturação, o que em geral acontece após quatro dias. O manual da SOBEST recomenda não passar de três ou quatro dias. Vazamento, infiltração ou descolamento pedem troca imediata.

Adjuvantes e quando usar

O documento de insumos da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina descreve assim as indicações de alguns adjuvantes:

Adjuvante Indicação descrita
Pasta protetora de pele Preencher desníveis da pele e vedar ao redor do estoma para evitar infiltrações
Anel protetor Preencher desníveis da pele e vedar ao redor do estoma para evitar infiltrações
Pó protetor de pele Dermatite periestoma úmida
Protetor cutâneo em spray Proteção da pele ao redor de estomas e feridas
Cinto elástico Auxiliar na fixação do sistema coletor
Placa convexa moldável Estomas intestinais planos ou retraídos

A escolha depende da avaliação do enfermeiro. Adjuvante usado sem indicação aumenta custo e pode piorar a aderência da placa.

Complicações precoces e tardias

A revisão da World Society of Emergency Surgery (WSES) com o grupo MISSTO, publicada em 2023, chama de precoces as complicações que surgem nos primeiros 30 dias e de tardias as que aparecem meses depois da cirurgia. A mesma revisão estima que entre 20% e 70% das pessoas com estomia terão alguma complicação.

Momento Complicações citadas nas revisões
Precoces Isquemia e necrose do estoma, descolamento mucocutâneo, retração, distúrbios de líquidos e eletrólitos
Tardias Hérnia paraestomal, prolapso, estenose, varizes paraestomais, pioderma gangrenoso

A retração pode ser precoce ou tardia. A revisão da WSES aponta a ausência de demarcação pré-operatória como fator de risco para prolapso, e o guia do Ministério da Saúde diz que a demarcação do local do estoma deve ser feita no pré-operatório das estomias de eliminação.

Na prática, qualquer perda da cor vermelha viva do estoma, sangramento persistente, separação entre estoma e pele, aumento de volume ao redor ou mudança importante de tamanho pedem avaliação. O INCA orienta comunicar ao estomaterapeuta a ausência de saída de fezes por três dias ou mais.

Reconhecer essas alterações exige ver muitos estomas. Na pós-graduação em Enfermagem em Estomaterapia da YnovaPós, estomias e fístulas têm módulo próprio na grade, e o estágio supervisionado de 60 horas em unidades de saúde e home care leva essa avaliação para o atendimento real.

Orientação ao paciente e à família

Para o guia do Ministério da Saúde, o ensino do autocuidado começa assim que se decide pela cirurgia, com orientações sobre a nova condição de vida. Antes da alta, a pessoa e quem vai ajudá-la devem saber:

  • esvaziar a bolsa no ponto certo e trocar o equipamento sem ajuda;
  • medir o estoma e recortar a placa;
  • limpar a pele só com água e sabão e evitar os produtos contraindicados;
  • reconhecer os sinais de alerta e saber a quem recorrer;
  • onde retirar os equipamentos pelo SUS.

Direitos das pessoas com estomia no SUS

A Portaria SAS/MS nº 400, de 16 de novembro de 2009, criou as Diretrizes Nacionais para a Atenção à Saúde das Pessoas Ostomizadas no SUS. Esse conteúdo hoje está na Portaria de Consolidação SAES/MS nº 1, de 22 de fevereiro de 2022 (Título I, Capítulo II, arts. 8º a 18), com a origem na Portaria 400/2009 indicada artigo por artigo. As diretrizes preveem dois tipos de serviço. O tipo I faz orientação para o autocuidado, prevenção de complicações e fornecimento de equipamentos coletores e adjuvantes. O tipo II faz o mesmo e soma o tratamento das complicações e a capacitação de profissionais.

O guia do Ministério da Saúde lembra ainda que, a partir do art. 5º do Decreto nº 5.296/2004, as pessoas com estomia passaram a ser identificadas como pessoas com deficiência física no Brasil. A SOBEST reúne os enfermeiros estomaterapeutas e publica materiais de orientação, como o manual voltado a pessoas com estomia na região amazônica. Normas mudam: a leitura oficial está nas fontes citadas, e este texto não é orientação jurídica.

Este texto é educativo e não substitui protocolos institucionais, prescrição ou avaliação profissional.

Referências

  1. Guia de atenção à saúde da pessoa com estomia. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Especializada à Saúde, 2021.
  2. Cuidados com a sua estomia: orientações aos pacientes (2ª edição). Instituto Nacional de Câncer (INCA), 2018.
  3. Manual de orientação à pessoa com estomia na região amazônica. Cunha RR, Rabello RR, Lourenço-Costa VV (org.). SOBEST, 2019.
  4. Insumos para ostomia intestinal e urinária. Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, 2023.
  5. Manual de assistência ao usuário ostomizado. Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, 2023.
  6. Surgical management of ostomy complications: a MISSTO-WSES mapping review. Danelli P et al. World Journal of Emergency Surgery, 2023.
  7. Current management of intestinal stomas and their complications. Tsujinaka S et al. Journal of the Anus, Rectum and Colon, 2020.
  8. Portaria SAS/MS nº 400, de 16 de novembro de 2009: Diretrizes Nacionais para a Atenção à Saúde das Pessoas Ostomizadas no SUS. Ministério da Saúde.
  9. Portaria de Consolidação SAES/MS nº 1, de 22 de fevereiro de 2022: normas da atenção especializada à saúde. Ministério da Saúde (cópia no portal da Secretaria de Saúde de Minas Gerais).
  10. Associação Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências. SOBEST.
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